segunda-feira, 15 de abril de 2013

Propositadamente Destítulado

Ofuscado. Difuso. Negro.
Para que lado fica o Norte, onde é cima ou baixo?
Escuridão total.
Volto-me sobre mim mesmo perscrutando o horizonte em busca de alguma luz ou sinal que me possa indicar para onde me dirigir, mas a toda a minha volta apenas existe uma escuridão total que não me deixa ver nada, rigorosamente nada que me permita entender, ou pelo menos vislumbrar que caminho devo tomar.
Escuridão total, esta que eu odeio e que me envolve como um manto, entorpecendo-me o corpo e toldando-me a visão, tornando-a difusa, longínqua, lá ao fundo as imagens distorcem até se tornarem num único e confuso borrão de cores escuras, as pálpebras cada vez mais pesadas... Uma escuridão que trepa sobre mim como uma Jibóia e que aperta, aperta, aperta... Até que pura e simplesmente não existe nada além de breu, negro como a mais escura noite de lua nova sem estrelas.
Perdido. Confuso. Desorientado.
Encontro-me perdido nesta viagem que se chama Vida, olhando para trás sem perceber exactamente onde foi que errei. Interrogo-me vezes sem conta se terei tomado as opções certas, se nas alturas desta viagem em que fui confrontado com escolhas e caminhos a seguir, onde pesei consciências, valores, morais, crenças, esperanças, opiniões e fé, pergunto-me se terei formado o correcto juízo sobre a direcção a seguir. Aqui parado no breu, penso e repenso, volto e revolto os passos que dei sem conseguir chegar a qualquer conclusão. Acerca do que fiz, acerca do que devo fazer. AHAHAHAH, é mentira!
Começo a chegar à conclusão de que não consigo chegar a qualquer conclusão acerca do que sou, do que acredito ou do que quero.
Sempre pensei que era um rapaz correcto, honesto, bem educado, com bons valores e ideias, com a minha personalidade própria mas perfeitamente capaz de entender e conviver com outras personalidades, e sempre achei que era o caminho moralmente certo, o caminho que as pessoas de bem tomam, aquilo que se deve fazer, o caminho correcto. E hoje penso em tudo o que fiz, em tudo o que vivi, tudo o que aprendi, e interrogo-me profundamente se terei compreendido o conceito de correcto. Se não deveria ter feito algumas (muitas!) coisas de outra maneira, se não deveria ter escolhido outro caminho em ditas alturas da viagem? Porque neste momento estou perdido, estou sem saber para onde ir, estou cansado de andar sem rumo, e já caí para o chão.
E o chão sabe bem. A Jibóia vai apertando e cada aperto dá um conforto de que depressa tudo vai acabar e ficar bem. Mas será que eu quero que acabe? Juro que já não sei.
Sinto-me completamente sem forças para mais uma vez enxotar esta cobra, levantar-me e continuar a andar sem qualquer sentido de direcção, sem qualquer luz que me alumie o caminho e que me ajude a evitar os tropeções e cabeçadas que vou dando, cada um mandando-me cada vez um pouco mais ao chão, cada um arrancando de mim mais um pedaço de esperança e fé. E de repente a Jibóia alcança novamente com o seu abraço confortável...

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