quinta-feira, 18 de dezembro de 2014

Pela boca morre o peixe

Muito boa tarde excelentíssimos amigos e amigas.

Para vos situar neste post, tenho de confessar que nos últimos meses tenho andado desanimado.
Deprimido, mesmo.
A minha barriga tem andado um bocado desregulada, tenho tido umas decepções com algumas pessoas, e a procura de emprego não tem dado grandes frutos se bem que esta ultima arrelia não me será, de maneira alguma, exclusiva.
A situação de emprego em Portugal está terrível até para quem não tem qualquer limitação, então para quem, como eu, de repente se "desfaz" em merda a coisa está ainda mais complicada.
Para piorar, o meu ultimo emprego foi numa seguradora, e pelo que me explicaram a área de banca e seguros, por motivos de segurança, utilizam tecnologias um pouco mais obsoletas que o ultimo grito o que faz com que eu esteja um pouco (muito) desactualizado em relação à programação, não sendo por isso um recurso apetecível pelas diversas entidades patronais. Além disso, as coisas não correram muito bem com o meu ultimo patrão, sinto que eles me deram um chuto no cú quando eu precisava que me dessem a mão, e isso faz-me ficar assim um pouco raivoso pois sempre dei ao litro por aqueles gajos e quando eu precisei basicamente disseram-me: "Vai-te foder, oh meu!!". Tudo isto fez com que eu tenha desistido de programar e tenha ido para o IEFP para procurar uma carreira alternativa.
Mas estou a divagar. Não é disso que eu venho aqui falar hoje, e muito honestamente nesta altura do campeonato essa é a ultima coisa com que me devo e me vou preocupar.

Como disse, pela boca morre o peixe. E é mesmo verdade. Eu, neste momento sou a prova viva disso.
E porquê?
Bem... Como disse, tenho andado deprimido, então andava a dizer a quem quisesse ouvir que já tive a minha dose de hospitais, internamentos, cirurgias e etc's, e que visto que a minha vida está uma confusão completa que preferia bater a bota a voltar a passar por estar preso num hospital. Que preferia esticar o pernil do que voltar a submeter-me a cirurgias e afins.
Pois é... Nesta altura de certeza que vocês já adivinharam o que vos vou dizer...
Acertaram.
Desde dia 15 à noite que estou internado em Santa Maria.

Então, o que se passa comigo? Lá chegarei. Deixem-me primeiro contar-vos como aqui cheguei.
Há umas semanas que me tenho andado a sentir cansado. A minha casa fica num terceiro andar de um prédio sem elevador, e cada vez que eu subia aquelas desgraçadas escadas eu chegava lá a cima num caco. Literalmente de rastos, com dores horríveis nas pernas e bastante dificuldade em respirar.
A coisa estava tão má, que eu na próxima consulta com a médica de família lhe ia pedir análises ao sangue pois andava desconfiado que estava novamente com uma anemia.
Mas andava tranquilo, pensei que a anemia se devia novamente a alimentação abaixo de óptima, sedentarismo e falta de cólon para absorção de nutrientes.
Preciso de vitaminas, ou algo assim do género, pensava eu. Pelo menos um reforço de ferro, como da ultima vez que estive anémico.

Acontece que, por acaso ou ironia do destino, tive uma consulta de rotina com a minha gastroenterologista no dia 15. E no decorrer dessa consulta ela olhou para mim e disse-me: "Há muito que não fazemos análises, não é? Eu já vou conhecendo qual é a sua cor, e você não está com muito bom aspecto, está assim um bocado para o branco. Vou fazer aqui o pedido, e você vai já recolher sangue para vermos como isso está."
Dito e feito, fui fazer as análises, e vim-me embora descansadinho da minha vida.
No caminho para casa fiquei sem bateria no telemóvel. Esta é uma situação normal no meu aparelho, que já é velhinho e já precisava da reforma. Então, deixei-o em casa a carregar, e fui para o café.
Quando finalmente fui para casa, o telefone já estava carregado, então liguei-o. E imediatamente recebi uma chamada de um número que não conhecia.
Era da central de colheitas de sangue do Hospital de Santa Maria. A senhora disse-me que tinha estado a tentar falar comigo a tarde toda (confirma-se, pois após desligar a chamada recebi a típica SMS que recebemos quando temos o tlm desligado, a dizer que o tal número que não conhecia me tinha tentado contactar 12 vezes) pois a Dra. que estava responsável pelo serviço de colheitas de sangue achou uns valores estranhos nas minhas analises, e queria que eu lá fosse para repetir as ditas. Por acaso estranhei o tom de voz da senhora, estava assim um bocado preocupada, mas como eu tinha coisas a tratar nesse dia disse que lá passaria no dia seguinte. E assim ficou, até que cerca de 10 minutos depois voltei a ser contactado pela mesma senhora que me dizia que a Dra. insistia muito que eu lá fosse ainda no próprio dia.
Fiquei alarmado, e lá anuí. E eu não sei porquê, mas algo me dizia que me queriam internar. Não tinha motivos para pensar nisso, além claro da insistência e do tom de voz da senhora ao telefone, então falei com o meu pai, e ele deu-me uma boleia até ao hospital. Não sei porque não levei o meu carro e pedi boleia, acho que o meu subconsciente já sabia que algo se passava, ou então o meu apuradíssimo  sexto sentido já sabia que vinha lá qualquer coisa. Pelo caminho fui sempre dizendo ao meu pai: "Meu, prepara-te que se eles me quiserem lá 'agrafar' eu vou fugir.", "Pai, eu não fico lá, nem que tenha de assinar o termo de responsabilidade para me vir embora", e cenas do género.
Chegado ao hospital explicaram-me que o nível de hemoglobina no meu sangue estava muito baixo, e que a confirmarem-se aqueles valores eles não sabiam explicar como é que eu ainda estava de pé e não tinha ainda caído para o lado. Isto porque a hemoglobina é o componente do sangue responsável por fazer chegar o oxigénio aos vários orgãos e membros do corpo. Desde segunda-feira que tenho ouvido isso várias vezes, seja de médicos ou enfermeiros, bastante gente me perguntou como é que com aqueles valores de hemoglobina eu ainda estava a respirar e não estava caído, morto, no chão.
Repetidas as análises, confirmou-se que as primeiras estavam correctas. Explicaram-me que uma pessoa em estado normal tem 14 gramas de hemoglobina no sangue, e eu apresentava 4. Isto faz com que o meu coração tem estado a trabalhar o dobro ou o triplo do normal, esforçando-se para oxigenar o meu corpo, e o risco imediato que eu corria era o de sofrer um enfarte.
Logicamente que não me deixaram sair de lá, e me internaram de imediato. E eu, que tanto falei, que tanto cantei de galo que não fico e não fico e não fico, assim que me disseram: "O mais provável é você ter leucemia" que o que senti foi como se alguém me tivesse dado com uma marreta na cabeça. Fiquei de todas as cores e mais alguma, pois só a palavra leucemia assusta.
E pronto, tive de engolir tudo o que disse, e deixar que me internassem.

No dia seguinte fiz um exame chamado Mielograma, que é tirar um pouco de medula óssea do esterno (o osso que temos no peito onde ligam as costelas) para que se analise a dita medula, e com isso se diagnostique a doença.

E confirma-se. Eu tenho o que se chama Leucemia Mieloide Aguda.
Vou ter de ser submetido a tratamento, a iniciar o quanto antes, tratamento esse que passa por transfusões de sangue (vá lá que não sou jeová, senão esticava o pernil em dois ou três meses), e por quimioterapia, que neste momento é o que me está a assustar que se farta.
Desde que fui internado que já levei com quatro transfusões, estou neste preciso momento a levar a quinta transfusão, e pelo que entendi devo começar com a quimioterapia o mais rápido possível.
No entanto, nem tudo é mau. A minha doença foi diagnosticada mesmo no inicio, e é no inicio que se deve atacar o problema aumentando assim as hipóteses de cura.
O que me explicou a médica foi que se diagnostica leucemia a partir de 20% de células malignas na medula. Os meus exames acusaram 21.5%, ou seja, está mesmo mesmo mesmo no inicio.
Outra coisa boa disto tudo é que eu andava aqui cheio de dilemas acerca do que iria fazer na passagem de ano, para onde iria, e assim olha... ...já está resolvido. Já sei perfeitamente onde vou celebrar a minha passagem de ano... Provavelmente a dormir, ou cheio de náuseas e vómitos devido à quimio. :P

E pronto, basicamente é isto. Mais uma vez, saiu-me na rifa uma brincadeira tramada para me dar conta do juízo, desta vez numa altura não tão propícia a isso, mas como me diz um amigo meu: "Tu és o Iron Man, tudo te acontece e não há nada que te deite abaixo.".
Começo a achar que ele tem razão...

Assim, meus caros amigos e amigas, a próxima vez que começarem a falar alto que não vão fazer isto ou aquilo, ou que vão fazer, ou o que seja... ...não cantem de galo.
Lembrem-se de mim, e recordem-se: "Pela boca morre o peixe..." ;)

Um grande abraço a todos
O Gajo sem Cólon, com pulmão colado e agora também leucémico.

P.S: A médica que me fez o mielograma diz que esta patologia não foi causada por culpa minha. Não fiz rigorosamente nada para que isto me acontecesse, é pura genética e que é como sair o euromilhões...
Bem... Raios me partam... Tenho de começar a jogar a sério no euromilhões de verdade. Com a sorte que tenho para me sairem coisas dificeis na sina, só me falta mesmo ganhar o primeiro prémio e ficar rico... :P

P.P.S: Têm-me dado bastantes comprimidos para controlar a ansiedade, nomeadamente Alprazolan, que até onde sei é genérico do Xanax (não tenho mesmo a certeza disto que estou a dizer, mas quase). Isto faz com que eu ande cheio de sono e zonzo, então não estou mesmo com cabeça para reler e reformatar e colocar este post todo bonitinho. O mais certo é estar cheio de frases mal construídas, provavelmente fartei-me de me repetir e não faço totalmente sentido no que estou a dizer, mas acho que desta vez tenho desculpa. Peço-vos um pouco de paciência, ok? Obrigado. ;)
Beijinhos e abraços!