domingo, 26 de janeiro de 2014

Esta porcaria não tem título porque eu estou sem pachorra para pensar num título para esta porcaria

Amanhece mais um Domingo. Que para mim podia ser mais uma Segunda-feira, feriado ou dia-de-são-nunca-à-tarde.
Estou na cozinha a comer a minha "massa consistente", e o meu gato está encostado à janela da varanda, a olhar para mim com aquela cara de pobrezinho pedinchas.
A "massa consistente" é o meu pequeno-almoço personalizado, inventado aqui pelo próprio, e é maioritariamente composto de Nestum de Arroz e bolachas Maria. Um dia ponho aqui a receita, se é que possa vir a ter algum interesse. Voltemos ao bichano, eu sei bem o que ele quer.
Quer janela. Muito gostam os meus gatos que eu lhes pegue ao colo, abra a janela e ali fique com eles a olhar para a rua.
Fiz-lhe a vontade, e reparo com agrado que o dia, apesar de frio, até não está feio. Ainda é bastante cedo. Hoje é um daqueles dias em que se poderia sair de casa agora, dar um salto até à praia, escrever mais uns parágrafos, quiçá tirar umas fotografias (já não me lembro quando foi a ultima vez que saí para fotografar... :/ ).
Isto era algo que eu fazia com alguma frequência. Saía de casa, sem destino certo, e depois logo voltava quando me fartasse. E era fixe. E muito honestamente hoje é um dia que parece porreiro para isso. Mas...
Pois. Já cá faltava o mas. Há sempre um mas. Haverá sempre um mas.
Respira fundo. Vamos a isso.
Mas, hoje, só durante o dia de hoje, que começou às 0 horas, já fui quatro vezes à casa de banho.
Estou a sentir o raio da barriga a borbulhar, o que indica que não tarda muito vai surgir a quinta ida ao poço. Tenho neste momento o olho do cu a arder de tal forma que estou a escrever estas linhas em pé.
Ultimamente é assim, parecido com o menino Jesus, que ora está estendido, ora está deitado, eu sou mais ora está em pé, ora está deitado.
Porque pura e simplesmente parece que não consigo estar sentado. Não sei se é da posição com que a barriga fica, se será por ficar apertada, o certo é que uns cinco minutos depois de estar sentado começo a sentir a barriga a apertar. E quando a barriga aperta, a seguir vem a contracção do anús, o que provoca o dito ardor que faz subir paredes, e depois das duas uma... Ou passa o aperto da barriga, ou tenho de correr para a casa de banho porque me vou borrar. Bem, quer dizer... Analisando bem a coisa, de uma maneira ou outra o aperto passa. Se passar por ter passado... ...passou (duh!). Mas se tenho de correr para o cagatório, o aperto também passa. É fixe, não é? Até é, mas o problema é que o ardor demoníaco continua. Esse não passa. Mesmo depois de me lavar com agua fria e sabão azul e branco, a sensação que tenho é a de que de repente as minhas fezes foram substituídas por chá a ferver, e este está a sair pelas frinchas do meu mal vedado traseiro (e isto soa bem pior escrito do que o mal que estava a soar na minha cabeça... ).
E isto, meus caros, DÓI!!!!!! Mas dói literalmente, não me refiro a uma dor de alma, ou dor de espírito, mas sim de uma dor bem física, demasiado física, que me faz a mim, que me considerava um tipo muito resistente à dor física, querer dar cabeçadas na parede. Bah... Querer? Eu já, em desespero, dei cabeçadas na ombreira da porta. Se é que vos interessa saber, a curto prazo foi porreiro, mas a longo prazo não ajudou em nada.
E assim amanhece mais um Domingo. Que para mim podia ser mais uma Segunda-feira, feriado ou dia-de-são-nunca-à-tarde.
A minha rotina traduz-se em cólicas, dores no olho do cú, assaltos ao WC a praticamente cada movimento intestinal e desespero por não ver uma saída para isto.
Não ver o que possa fazer para me sentir melhor. E o que é o pior disso tudo, aquilo que mais me rebenta com o sistema nervoso, é ver-me de braços e pernas atados em relação ao meu futuro.
Sempre tive objectivos, como já o disse aqui. E correndo o risco de me repetir, a verdade é que continuo na mesma, se não pior, em relação a perspectivas de futuro.
Já não bastava isto andar um crise desgraçada onde pura e simplesmente não existe trabalho. O País atravessa uma fase muito complicada e difícil, onde nos pedem mais compreensão e sacrifícios, e eu só me pergunto como é que eu vou conseguir sacrificar-me. Como vou conseguir cumprir com algum eventual contrato de trabalho que possa vir a ter. E nem vou entrar pela onda de "e um trabalho a fazer o quê?"...
Estou num ponto em que dou comigo a pensar: "se eu não consigo tirar um Domingo para mim mesmo e relaxar, como raio hei-de conseguir trabalhar e construir o meu futuro?". E isso é desesperante.
Muito.
E assim amanhece mais um Domingo. Que para mim podia ser mais uma Segunda-feira, feriado ou dia-de-são-nunca-à-tarde.

sexta-feira, 3 de janeiro de 2014

Descarga de frustração

Não sei como começar este texto. Não sei sequer exactamente o que quero dizer.
Só sei que sinto a necessidade de escrever umas merdas que me queimam as entranhas há demasiado tempo, e que pelos vistos não me vão largar enquanto não as exorcizar.
Não sei como me sinto. Ou antes, até sei.
Sinto-me cheio de raiva.
De desespero. Frustração. Mas acima de tudo, sinto raiva. E a parte perigosa é que eu não estou vacinado contra este tipo de raiva (acho que tão pouco existe sequer vacinação), e sinto-me a passar dos carretos um pouquinho mais a cada dia.
Nunca fui um menino do coro, tenho o discernimento suficiente para não ser hipócrita e dizer que sempre me portei bem. Mas, igualmente importante é o facto de que também nunca fui um filho da puta que prejudicasse alguém, pelo menos intencional ou deliberadamente.
Na verdade, até acho que sempre fui um otário com coração mole, e mais de uma vez me prejudiquei a mim para ajudar ou facilitar outros, e por mais vezes do que aquelas que eu gostaria que acontecessem houve quem se aproveitasse deste defeito em seu proveito... Mas enfim, o que importa reter aqui é que nunca me considerei nem um betinho nem um parasita da sociedade. Acho que sempre fui um tipo perfeitamente normal, com ambições, defeitos, desejos e sonhos como qualquer outro individuo, que deseja aos outros o mesmo que deseja para ele mesmo. Pelo menos até agora.
Eu sinto que estou a mudar. E sim, toda a gente muda, mas eu sinto que estou a mudar para pior.
Estou a tornar-me alguém que eu não gosto de ser. E se tipicamente a resposta que se daria a um cromo que diga uma coisa destas seja: "Então faz por mudar, torna-te em alguém que gostes de ser", neste momento estou em posição de dizer que isso não é assim tão simples ou linear.
Acho que é uma questão de paciência. Ou da falta dela. Acho que quando se está constantemente com dores no olho do cu, simplesmente não se tem paciência nem para nós mesmos. Qualquer coisa minimamente imprevista, ou fora do roteiro, me faz logo ferver e largar fumo pelas narinas, qual Smaug a tentar assar anõezinhos...
E isso é mau. Ando sempre mal-disposto e rezingão, e não gosto disso. Isto não sou eu.
Ando num estado destrutivo onde não consigo ter fé em nada. Estou cansado destas dores. Estou cansado de sair de casa e ter de voltar a correr porque ou tenho o olho do cú a arder ou porque estou prestes a borrar-me. E estar a borrar-me é horrível, posso garantir, pois estar prestes a borrar-me significa que tenho merda sob pressão mesmo à porta (leia-se mesmo encostadinho ao dito olho) a querer sair, e quando isso acontece arde-me horrivelmente. Mas HORRIVELMENTE! Não sei como descrever. Quase que diria que parece que tenho um fio de cobre a 100000º centígrados enfiado no cu, mas juro que acho que este cenário fica muito, mas muito aquém do que aquilo que realmente é.
Estou cansado de procurar trabalho sem receber sequer uma resposta. Bem, não posso dizer isto, na realidade recebi uma resposta, a dizerem que não estavam interessados, mas pelo menos tiveram a simpatia de responder.
Muito honestamente isto não me surpreende. Estupidamente (ou não) eu gosto de ser honesto. E quando procuro trabalho, informo o potencial futuro patrão da minha condição médica. Já pensei muito sobre isto, e acredito piamente que esta é a coisa certa a fazer. Eu não posso simplesmente esconder o facto de que vou à casa de banho mais vezes do que aquelas que o meu gato se lambe, e depois começar a trabalhar e eventualmente ser chamado a explicar porque passo mais tempo no WC do que a trabalhar. Isso a mim parece-me começar com o pé errado.
Então, estupidamente (ou não) explico na minha candidatura que o ideal seria um emprego em regime de freelancing, mas que devido à minha situação estou disposto a experimentar qualquer coisa.
E se isto está mau para quem é "normal" e não padece destas limitações, eu apenas posso imaginar o que será para mim.
Ponho-me a imaginar como será o meu futuro. E não é difícil. É na verdade bastante simples: não tenho futuro.
É tão simples quanto isto. Eu não tenho futuro. Não tenho capacidade ou condições de poder desempenhar correctamente a minha profissão. Ou antes, consigo desempenhá-la correctamente, mas não em tempo considerado aceitável. O meu antigo chefe que o diga. Recordo-me perfeitamente do stress gigantesco que ele me colocava em cima, aquela pressão acerca da produtividade, mesmo ele sabendo da minha situação. E ponho-me a pensar nessas merdas, e o meu estúpido cérebro começa a trabalhar a 200 à hora, e vou-me lembrando das coisas, e começo a enervar-me, e... Lá está... Esta é a derradeira prova de que eu me estou a tornar uma pessoa pior.
Antigamente seria impensável para mim desejar realmente mal a alguém. Até mesmo a quem me tivesse prejudicado. Era capaz de gracejar um bocado, dizer que esperava que lhe nascesse um sobreiro atravessado no cu, mas era apenas isso mesmo, gracejar e libertar o stress de forma saudável. Mas se me perguntarem agora, neste preciso momento em que me contorço com dores no baixo ventre, com um ardor no olhinho que me deixa doido, e não no bom sentido?
Sim, neste momento eu digo, e não a gracejar, que espero que o meu chefe venha a passar exactamente pelo mesmo que eu passei e continuo a passar. Epá, gostava mesmo. E depois gostava de ter assim uns quinze minutos para chegar ao pé dele e perguntar-lhe "que tal?". Perguntar-lhe se ele ainda achava que as longa baixas médicas se deviam a uma questão de conforto e não de saúde, como ele me disse. Perguntar-lhe se ele ainda era tão produtivo e all-mighty-powerfull agora que tem de ir cagar a cada hora, agora que tem de se levantar da cadeira onde está sentado apenas porque não consegue aguentar mais o ardor no olho do cu. Gostava mesmo de lhe perguntar a que sabe ter um caralho a pressiona-lo por uma produtividade que ele tenta desesperadamente manter, estando todo fodido da tripa, e sem saber o que fazer para ficar melhor. Perguntar-lhe que tal ele se sentia agora, especialmente sabendo que estava num sitio onde já o conheciam, onde já sabiam quais as suas capacidades, e onde sabiam o que ele estava a atravessar e o porquê. Gostava de lhe perguntar como ele se sentia agora que via a merda que lhe despejam pela cabeça abaixo, depois de lhe dizerem que o assunto iria ser tratado internamente na empresa, "sem papéis ou relatórios de médicos, pois estás connosco há muitos anos, nós conhecemos-te e sabemos qual a qualidade do teu trabalho", mas depois começarem a fodê-lo e a enterrá-lo no trabalho assim que a mui suspeita consulta de medicina de trabalho que lhe arranjaram determinou que ele, alguém sem intestino grosso, era uma pessoa tal e qual como as outras todas, sem sequer olharem para um papel de baixa, para um relatório de cirurgia, para o que quer que fosse que dissesse ou simplesmente indicasse o que lhe tinham feito. Gostava mesmo de lhe perguntar como é que ele consegue dormir à noite, como é que ele consegue viver bem com ele mesmo e ainda não se atirou de uma ponte abaixo. Juro que gostava mesmo que isso acontecesse. E isto, meus amigos, prova que eu sou uma pessoa má. Ou que me estou a tornar uma pessoa má, que deseja o mal a outros. E não, eu não era assim.
E agora que a minha carreira está desfeita, não sei como vou enfrentar o futuro, a verdade é essa.
Sem querer dramatizar, eu espero conseguir algo que me permita sobreviver, claro. Mal de mim se assim não pensasse. Mas tenho plena consciência que nunca vou ter sucesso. Nunca mais vou ser um trabalhador excepcional, que receba prémios e essas merdas de formas de hipnotismo corporativo, mas que nos permitem mimar a nossa vida e construir o caminho para os nossos sonhos.
Como o de comprar uma pontinha de terreno, como fez o meu avô, e nele construir a minha casinha.
Há muitos anos que sonhava com isto. E sempre achei que seria possível um dia, até porque eu não sou megalómano. Não precisava de um campo de futebol, não... Um espacinho que me desse para por a minha casita, nada de muito grande até porque quanto maior a casa, mais difícil é limpá-la e mantê-la limpa... ;) Não, eu não preciso assim de tanto espaço, e não sonho tão alto. Uma pequena casita, uma garagem onde pudesse guardar o meu carro e utilizar como workshop para os diversos trabalhos manuais que eu vou fazendo sem condições no meu quarto, e uma pontinha de terreno onde pudesse plantar umas couves. Nada de muito fancy, nada de muito vistoso, só o meu cantinho. E neste momento eu tenho de ser realista e ter consciência de que isso nunca vai acontecer.
Afinal, se eu me ponho a fazer contas e não me vejo a conseguir pagar sequer uma renda de uma casa alugada, quanto mais comprar um terreno e construir algo. Se eu não vejo como vou subsistir, como vou pagar a medicação que tomo, se não vejo como vou trabalhar de forma aceitável, como raio posso sequer pensar em ter o meu cantinho? Já não falo no sonho do terreno, não, refiro-me mesmo a ter a minha casinha.
Como todos nós, eu também almejo um dia ter a minha casa. Como já mencionei, preferia que fosse com terreno à volta, sim, mas sei que é um sonho difícil de alcançar (mesmo tendo a tripa toda), então até me tinha conformado a ter de viver a vida toda num apartamento. Mas se eu não estou a ver que raio de rendimento financeiro vou ter na minha vida, como posso pensar em ter a minha casinha? Resposta rápida: não posso.
Comprar um apartamento está completamente fora de questão. Até quando trabalhava, estando efectivo e recebendo um ordenado acima da média, não tinha grande margem de manobra para isso, quanto mais agora que estou desempregado e sem perspectivas de conseguir um trabalho com uma remuneração decente. Há a grande alternativa que nos dias que correm está a ganhar cada vez mais adeptos: arrendar.
Mas para arrendar, também é preciso ter rendimentos. O senhorio vai querer receber a sua renda a tempo e horas, logicamente e com toda a razão, e eu não estou a ver estabilidade financeira para garantir que isso aconteça.
Em suma... ...voltamos ao mesmo: não vejo que raio de futuro possa vir a ter à minha frente. E hoje ponho-me a olhar para trás, e começo a achar que fui um perfeito otário. Podia estar muito melhor na vida do que aquilo que estou hoje. Ok, poderia estar muito pior, também, é uma possibilidade, mas juro que há muita coisa que hoje faria de outra forma.
Acho mesmo que não adianta de nada planear o futuro, sonhar, fazer planos. Não. Vai existir sempre alguma coisa que vai deitar por terra esses planos. Seja na forma de uma pessoa, seja na forma de um acontecimento, seja na forma de sucessivos governos corruptos que hipotecaram o futuro do meu país, e com ele o meu próprio (cala-te, já estás a fugir ao tópico...), seja de que forma for, vai sempre aparecer o famoso Murphy para te lembrar que esta vida é macaca, e que não adianta sonhar.
Mas sonhar é o que movimenta o ser humano... E agora?