sábado, 20 de abril de 2013

Estigmas da sociedade - O hábito faz o monge

Desde que fui operado que tive de alterar a minha forma de vestir. Custa-me colocar um cinto, e vestir calças de ganga justas na cintura é uma tortura. Não consigo ter o baixo ventre apertado, até mesmo umas calças de fato de treino com um elástico mais apertado se tornam desconfortáveis ao fim de uma meia hora.
Então, e visto que estou de baixa, tenho deixado os fatos e as gangas no armário, e tenho andado vestido mais com fatos de treino e calças sem botões. Ando vestido mais à "dread", digamos. E devo confessar, até prefiro, é extremamente confortável. Algumas calças de cintura mais apertada continuam a incomodar-me, mas dobrando o elástico sobre si mesmo, criando uma espécie de calças de cintura descaída, a coisa torna-se mais suportável. Muito mais. Claro que quando me agacho, se me descuidar um bocado, fico com o rego à mostra, mas perdoem-me a frontalidade: quero é que se foda. :) Peço já desculpa a quem se possa ofender com tal visão, mas neste momento o meu conforto é deveras importante.
Mas como dizia, tenho andado vestido à dread, e é interessante ver como as atitudes das pessoas em geral mudam consoante aquilo que um gajo traz vestido.
O facto mais flagrante são mesmo os pedintes e angariadores. Quando andava de fato era raro não ser interpelado por romenos sentados no passeio que, ora tinham uma doença gravíssima qualquer, ora tinham carradas de filhos para alimentar, então pediam encarecidamente uma ajudinha que fosse, ou os senhores e senhoras das mais diversas instituições humanitárias, sociais, ou de apoio que andam pelas ruas a angariar donativos, era muito rara a vez em que eu conseguia passar sem ter de estar a explicar que por mais boa vontade que eu pudesse ter, a vida está muito difícil, e tomara eu que me ajudem a mim.
No entanto tudo isso acabou desde o momento em que passei a vestir-me "à larga". É que quase nem olham para mim, eu já fiz o teste. A subir a rua, com as minhas calças onde cabem quase dois de mim, sweatshirt largueirona, raybantes na fronha e boné enterrado na cabeça, fiz de propósito para ir de encontro a um casal que estava no passeio com um balcãozito improvisado com uns caixotes de madeira. Pertenciam a uma associação de animais qualquer, e pediam donativos.
Deixem-me esclarecer que eu adoro animais. Gosto mais dos animais do que muitas pessoas que caminham neste mundo, e se me tivessem pedido, muito provavelmente o meu coração mole da treta teria vencido e eu teria oferecido o dinheiro da minha bucha da manhã.
Mas o giro é que não só não me disseram nada, como até se afastaram para eu passar. De imediato snifei profundamente as minhas próprias axilas, mas não me pareceu que cheirava mal. Então apenas posso assumir que olharam para mim e pensaram que, das duas uma (ou quiçá as duas), este gajo não tem onde cair morto, ou não gosta de animais. Bem, acertaram numa delas... ...de facto eu não tenho onde cair morto. Mas continuo a adorar animais, da mesma forma que os adoro quando visto um fato. E, pelo menos até onde eu me tenha apercebido, também de fato continuo sem ter onde cair morto.
É interessante também analisar o comportamento dos variados tipos de pessoas ditas normais. Por exemplo, eu orgulho-me de ter sido muito bem educadinho pelos meus pais. Ensinaram-me a respeitar os outros, a ser cortês, enfim, a ser bem educado. Então  quando chego a algum sitio, eu digo, como manda a boa educação, "bom dia", "boa tarde" ou "boa noite". E acreditem ou não, a reacção depende de como estou vestido. Durante anos a fio eu chegava à paragem do autocarro, com o meu fatinho e gravata, e dava os bons dias a quem la estivesse. E as pessoas sorriam abertamente, e desejavam bom dia de volta.
Agora chego à paragem com o meu rapper-look, digo "bom dia" de forma clara e audível  e a reacção é um ou outro "dia" (sim, "dia" e não "bom dia") murmurado entre-dentes  o qual eu não entendo sequer de onde veio, enquanto a maioria das pessoas olha para cima, para o lado, para os bicos dos sapatos, para todo o lado menos para mim, como se eu fosse invisível. Será que não me reconhecem?
A dizer a verdade eu nem me importo, estou-me pouco borrifando para o facto de não me responderem ao cumprimento. Só acho engraçadíssimo este estigma que faz com que parece que quem se veste à dread é um gandulo. Porque eu continuo a ser o mesmo tipo, com os mesmos valores, os mesmos ideais e crenças.
Lamento imenso que esta sociedade viva ainda agarrada a ideias tabu de mentalidades do século passado que dizem que as pessoas honestas vestem fato e gravata. Quer dizer, a maior concentração de ladrões, vigaristas e aldrabões que eu conheço está no governo, e lá tudo usa fato e gravata. Não é isto por si só um indicador grande, bem luminoso diante do nariz deste Povo que se calhar não é vestir um fato que traz honestidade, idoneidade e carácter?
Mas que triste que fico com tanta mente retrógrada que por aí anda de olhos fechados... Coitaditos...

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