Já há bastante tempo que eu era da opinião de que não tencionava ter filhos.
Apesar de não ignorar a parte em que sim, não deve existir nada mais maravilhoso que gerar, criar e cuidar de uma vida proveniente da nossa própria existência, vê-la crescer e amá-la, também tenho de ser realista e admitir que eu mal sei cuidar de mim, quanto mais de uma criatura pequena e indefesa. Sem falar em condições, é absolutamente necessário ter condições de criar um ambiente de estabilidade e harmonia no qual a criança possa crescer e desenvolver a sua personalidade.
Mas ainda sequer sem chegar a essa parte do dilema, o destino acabou por me facilitar a vida nesse sentido.
Vários médicos de diferentes especialidades, desde médicos de medicina geral, a oftalmologistas, pneumologistas, e até uma médica especialista em medicina genética me disseram que em caso de eu vir a ter um filho, que há grandes, mesmo muito fortes possibilidades de que a criança também venha a padecer do mesmo problema de polipos que eu tenho.
No caso de eu ter um filho, essa criança teria de ser submetida a colónoscopias anuais desde os doze anos de idade de maneira a detectar e retirar prematuramente quaisquer polipos que se viessem a formar.
Apesar de não se ter conseguido ainda identificar o exacto porquê do meu corpo ter desenvolvido esta alteração, é garantido que é de origem familiar, sendo então hereditário.
E apenas esta razão me faz concluir e ter a certeza de que se há alguma coisa que eu faça de certo na vida, é a de decidir não ter filhos biológicos. Acho que não conseguiria viver em paz com a minha consciência sabendo que uma criança de tão tenra idade, que só se devia concentrar em estudar , brincar e crescer feliz, teria de ser submetida a estes procedimentos. Não mereceria.
E até aqui tudo bem, a quem lesse isto até iria parecer que eu sou boa pessoa, um tipo com consciência e bom coração. Mas as vezes acho que não sou...
Estava a almoçar, e ouvi assim de surra uma noticia de que o governo vai incentivar a natalidade.
Desde já quero deixar claro que não ouvi a noticia com atenção, nem me dei ao trabalho de ir a procura, mas fiquei a matutar... É um dos meus grandes defeitos, o meu sub-consciente fica aqui a mastigar coisas que mais valia eu nem ter sabido.... Mas adiante.
Então, com uma taxa de desemprego tão alta, porquê estimular ainda mais a natalidade? Se for a ver, se calhar até faz sentido. Se tiveres um filho estando desempregado, não vais ter o stress enorme de encontrar um sitio decente e de confiança onde deixar a prole enquanto estás no serviço. Além de que vais poder acompanhar o crescimento do rebento desde o primeiro dia, o que me parece uma oportunidade maravilhosa.
E se os pais estiverem empregados, então está aqui uma oportunidade única de criar um boom de emprego: ama-seca.
Agora que estou a pensar nisto, parece-me um plano genial.
Basta por um lado incentivar à natalidade das poucas pessoas que ainda estão empregadas, enquanto ao mesmo tempo se lançam gigantescas acções de formação de babysitting aos desempregados por este País fora, de maneira a que o desemprego gradualmente baixe enquanto os pais vão regressando aos seus empregos.
Sim... Isto é capaz de resultar.
Mas agora que estamos a falar no assunto, eu acho que as coisas são bastante injustas no que toca a vantagens em procriar. Quero com isto dizer que a minha decisão de não ter filhos, apesar de parecer bastante responsável por não colocar neste mundo uma criança sem as devidas condições para o fazer, acaba também por me prejudicar. Por exemplo, lá no serviço, quando alguém tem um filho, tem direito a ficar em casa a acompanhar os primeiros dias da prole. Entenda-mo-nos, eu não estou contra isto, acho muito bem que se tenha direito a viver um momento tão mágico como ser pai, mas se formos a ver, eu nunca tive direito a nenhum dia de nenhuma vez que acolhi um gato abandonado. Lanço a questão, será que é mais importante para esta sociedade ter a decisão de colocar um ser minúsculo ser humano neste planeta, do que a de salvar a vida de um pobre animal que já cá caminha na face desta terra?
Nunca ouvi falar de ninguém que tenha sido recompensado por salvar a vida de um animal, mas casos de quem é recompensado por ter tido filhos são casos do dia a dia. Será justo?
Ou quando por exemplo uma das crianças está doente, então o pai ou mãe não vai trabalhar porque tem de cuidar do rebento, está tudo bem e não se passa nada.
Eu, por outro lado, quando passo uma noite sem dormir a caminho da casa de banho a cada meia ou três quartos de hora e de manhã ligo a avisar que estou todo torcido da tripa, e que não me consigo levantar da cama, a resposta que recebo é "ok, então depois traz o papel do centro de saúde". Claro que sim, estou cheio de dores, com uma diarreia fodida, mas sim, vou levantar-me e caminhar para o centro de saúde para ficar quatro ou cinco horas a espera para falar com um médico, e explicar que apenas estou ali para que me passem um papel que certifique que de facto não estou em condições de trabalhar, e não sou apenas um preguiçoso mentiroso que não quer trabalhar.
Aparentemente ter filhos faz de nós mais honestos. Então parece-me mais um ponto a favor do ter filhos.
E as prendas? Enxovais e fraldas, e toda uma parafernália de objectos e utensílios para bebés, já para não falar do dinheiro.
"Já soube que tiveste um filho, espero que corra tudo bem, que venha saudável, toma lá uma lembrançazita para ajudar!".
Então quando um gajo responsável que decide não ter filhos compra uma playstation, porque é que nunca ninguém disse: "Já soube que tens uma playstation! Espero que corra tudo bem, que não precises de recorrer ao apoio técnico, toma lá um joguito para ajudar!". Fará sentido?
Ou os casamentos? Uma logística Hérculeana incluindo para muitos convidados a ginástica do arranjar algo decente para vestir, mais uma bela prendinha para os felizes noivos que na grande maioria das vezes passados nem um par de anos já estão divorciados. Esta então parece-me a melhor vantagem.
Já há algum tempo que me parece que também não vou casar. Não é que eu seja esquisito, pelo contrário, acho é que não há quem tenha aquilo que é preciso para me aturar. Então, parece-me que também não vou casar.
Mas quer-me cá parecer que casar é um excelente negócio. Podia casar, receber as prendinhas, e descasar passados uns meses. Rinse and repeat.
Isto parece parvoíce, mas a realidade é que a conclusão a que eu chego é que esta sociedade está feita para beneficiar os "robôs" que entram no sistema: nascer, crescer, casar, ter filhos, trabalhar o resto da vida para sustentar a família, morrer.
Isto não seria errado se o beneficio não fosse apenas para esse grupo.
Existem pessoas, como eu, e eu acredito que cada vez somos mais, que decidimos não ser exactamente aquilo que a sociedade espera que sejamos. Que decidimos não casar, ou não ter filhos, entre muitas outras coisas. E não é por isso que deixamos de dar o nosso contributo para a sociedade, por vezes até mais do que os "robôs".
Então porque não temos direito também a alguns benefícios? Porque o que acontece actualmente é precisamente o contrário, somos prejudicados por decidir não ser iguais ao resto do rebanho.
Enfim... Tanto disparate num só post parece-me demais até para mim... Mas infelizmente não consigo controlar este bichinho na minha cabeça que murmura para aqui coisas entre-dentes com o meu sub-consciente, e me deixam a pensar nestas coisas... Quem sabe se a vocês também?
Bottom line, acho que estou mesmo a ficar maluquinho... :)
Um abraço a todos, e até à próxima.
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