E a verdade é mesmo esta... A grande maioria das pessoas não prestam. E começa por mim...
No outro dia precisei de ir a um multibanco. Essa raça de maquinetas que agora são mais esquivas que os gambozinos, devido aos energúmenos que por agora aqui andam e que acham que é o máximo rebentarem com os ATM para ver se de lá sacam uns guitos.
Se chegam a sacar alguma coisa de jeito, eu não faço a menor ideia, mas sei que o efeito de tal acto é o de simplesmente conseguirem que os responsáveis pelas maquinas multibanco as tirem de lá antes que os meliantes se lembrem de lhes rebentar com o estabelecimento, provocando um efeito devastador para malta assim como eu, que apenas quer utilizar os multibancos para aquilo que eles realmente foram feitos.
Ou seja... ...isto faz com que cada vez existam menos multibancos disponíveis. Na Cidade Sol, por exemplo, se queres levantar dinheiro ou vais ao Pingo Doce ou ao Intermarché, e tens de ir enquanto estes estabelecimentos se encontrem dentro do seu horário de funcionamento, ou não há multibanco para ninguém porque o acesso às máquinas encontra-se apenas dentro do edifício.
E foi basicamente isto que me aconteceu. Precisei de levantar dinheiro, e já que estava pela zona, fui ao Intermarché. E isto foi um erro tremendo...
Ok, talvez esteja a exagerar um pouco, um erro não foi... ...foi antes um infortúnio.
Quando lá cheguei, ouvi um miar que era... ...como é que explico isto?... ...um miar aflitivo. Um miar que pedia desesperadamente atenção, um miar que era literalmente um choro.
Mas vamos posicionar-nos no cenário correctamente, para ver se consigo expor exactamente o meu ponto de vista.
Estava um frio desgraçado, estava um vento forte, enregelante e desagradável. Chovia a potes, e estava tudo molhado. Estava à porta do Intermarché um senhor, que eu já o vi por lá a afixar posters com as promoções da loja, e já o tenho visto lá em cima nos escritórios, então suponho que ele pertença à gerência.
E o dito senhor lá estava à porta, a falar ao telemóvel e a afugentar com os pés o gatinho quando este tentava entrar para dentro da loja, muito provavelmente para fugir ao frio e à chuva.
Felizmente ele nunca chegou a acertar de facto com um pontapé no gato, pelo menos que eu tenha visto... ...mas o miar era tão aflitivo que me partiu o coração.
Eu consegui entender exactamente o que o animal queria. Queria carinho, queria fugir do frio e da chuva, queria ser amado e protegido. E eu consegui por-me no lugar do gato.
Eu sei bem o que é esse desejo de amar e ser amado. De ter carinho, de ter alguém em quem confiar, mas ser barrado no caminho.
E posto isto, sinto necessidade de esclarecer uma coisa... Quem ler esta merda vai ficar a pensar que eu não sou amado, o que é um conceito um pouquinho errado. Felizmente sou amado. Tenho os meus pais e a minha irmã, que sei que gostam de mim independentemente de todos os defeitos que eu possa ou não ter, independentemente de todas as falhas ou virtudes que eu possa ter. Tenho os meus amigos, que apesar de não os ver tantas vezes como antigamente, sei que continuam presentes para o que der e vier, tal como eu estou para eles.
Não, eu não digo que não sou amado, porque isso não é verdade.
Mas todos sabemos que há amar e amar. O amor não é feito de uma só cor. O amor é um degradé extremamente complexo que nem os mais entendidos nas matérias do coração conseguem explicar totalmente.
Não vou dar novidade nenhuma a ninguém se disser que o carinho que se recebe de uma família, com tudo o que de bom tem, não é a mesma coisa que o carinho que se recebe daquela pessoa especial, tão difícil de encontrar. Isso já entra na parte do degradé, onde as cores se começa a misturar e não sabemos exactamente onde começa uma e acaba outra.
E foi isso que eu senti ao ouvir aquele miar durante os 10 minutos que estive à espera que chegasse a minha vez de utilizar a maquineta caga notas.
Um miar cortante, profundo, como se dissesse "Vá lá, deixem-me entrar. Está muito frio aqui fora, e eu estou gelado.". Enquanto esperava, vislumbrei o bicho. Tratava-se de um gatinho pequeno, minúsculo, com o pelo castanho malhado como os tigres, que não devia ter mais do que dois meses de vida. E lá andava ele.
As portas da loja (sendo automáticas) abriam com a passagem das pessoas, e o pobre animal lá investia com mais uma tentativa de invasão ao Intermarché, apenas para ser afugentado pelo pé do gerente que ali montava guarda.
E de cada vez que o gato dava a sua corrida, era cada vez que soltava aquele miar a pedir ajuda, a pedir clemência, a pedir uma ponta de compaixão que fosse.
E o que me custou ver as pessoas a passar, como alguém que passa por um mendigo ou um sem-abrigo e os ignora completamente, virando a cara e olhando para o lado numa tentativa fugaz de não ver aquilo que está mesmo à sua frente. Bem, ok, ainda haviam algumas pessoas que comentavam a situação, e diziam: "pobre gatinho", "coitadinho", e essas tretas todas que se dizem porque fica bem dizer.
Esta situação custou-me. Fico surpreendido pela maneira como isto me afectou tanto. Isto parece tão estúpido, mas eu consegui por-me exactamente na pele do gato. Consegui (e acho que ainda consigo) sentir o desespero do animal.
Ainda pensei em agarrar nele e levá-lo para casa dos meus pais, mas eles já lá têm três, simplesmente não há espaço para mais um bicho naquela casa. Obviamente que pensei trazê-lo para minha casa, claro. Mas esta é uma daquelas alturas em que tenho de ser realista... ...a minha casa praticamente não tem condições para eu cá viver, quanto mais para trazer para cá um gato. Não, não sou capaz de trazer para cá um animal enquanto não tiver condições condignas para ele.
Então fiz o que toda a gente fez... ...virei a cara, meti-me no carro e fui-me embora.
E não consigo explicar, não existem palavras ou eu não tenho inteligência suficiente para o fazer, mas não sei classificar o que sinto por isso.
Sei que nunca mais vou ver o gato, nunca mais na vida vou saber o que lhe aconteceu, mas vou tentar pensar que houve alguém, uma pessoa que ainda tenha pingo de boa vontade ou possibilidades de dar a mão ao bicho, que o tenha feito. Espero mesmo que isso tenha acontecido, peço-o aos meus santinhos todos, mas no fundo acho que isto, se calhar, não passa de sentimento de culpa por não ter feito nada, tal como tantos outros. Mas lá está... Se calhar é por isso que eu ando como ando. Chama-se Karma, meus queridos, e é um fenómeno implacável que nunca falha. Mais cedo ou mais tarde, o Karma apanha-nos e julga-nos por tudo aquilo que, de bom e de mau temos vindo a fazer, quase como o julgamento final no purgatório, mas este ocorre ainda em vida e não é one-time only. É mais um processo contínuo que nunca descansa.
Eu... ...no fundo não sou melhor que todos os outros que ignoraram a situação do gato, pois fiz exactamente a mesma coisa. Deixei-o entregue à sua sorte. E isso, meus caros amigos e amigas.... ...dói que se farta.
Enfim... ...desculpem lá o desabafo. Este blog, que supostamente seria para partilhar as minhas experiências adjacentes a uma vida sem cólon, começa a descambar, e muito, no seu propósito.
Tenho andado com ideias de fazer uma actualização de estado acerca desse assunto, mas muito honestamente já não vou prometer nada. Com dias (e o Dias) cinzentos como ultimamente, tudo o que escrevo me parece altamente depressivo, então ainda ando à espera de conseguir fazer um texto digno de ser publicado, que não me pareça ter sido escrito por um emo a quem tiraram as tesouras.
Aguentem-se aí, que eventualmente o dito texto surgirá. Sim, porque eu acredito piamente que vocês estão extremamente interessados... ;)
Um grande abraço
O Gajo sem Cólon
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