Tal como muitas outras pessoas neste Planeta merdoso, em toda a minha vida, nunca tive nada assim de mão beijada. Sempre tive de lutar para ter aquilo que eu queria ter.
Estou rodeado de pessoas por todo o lado em que lhes dão as coisas. Simplesmente lhes dão. Não sei explicar, mas é assim. Desde telemóveis, a carros, a casas, eu sei lá. Simplesmente lhes dão, os pais, ou amigos, ou familiares, ou whatever!
Mas atenção, que fique bem claro que não tenho nada contra essas pessoas, muito pelo contrário. Espero mesmo que se orientem, e se lhes dão umas borlas... ...foda-se, melhor ainda, aproveitem!!
Não falo assim só porque os meus pais não me deram essas coisas. Népia, nem pensar nisso. Os meus pais só não me deram mais porque não puderam. Tudo aquilo que eles me podiam dar eles deram.
Mas também tenho de dizer que uma das coisas que mais me orgulho nesta puta desta vida é o facto de não ter tido nada oferecido assim à grande. Nope, praticamente tudo o que eu tenho, tudo o aquilo acerca do qual eu digo: "isto é meu", foi conseguido à custa do meu esforço, do meu trabalho, do meu suor. E isto é, na minha humilde opinião pessoal, das coisas mais gratificantes que podem ter neste mundo cão em que vivemos.
A minha primeira consola de jogos (a velhinha, mui fatela e altamente pirata Family Game) foi-me comprada pelo meu pai depois de uma temporada de bons resultados na escola e "pseudo-lavagens" de louça (pseudo, porque segundo a minha excelentíssima ex-namorada, se nem hoje em dia sei lavar a loiça a 100%, quanto mais naquela altura). Os meus pais compraram o meu primeiro computador quando entrei para o curso de tecnologias de informação e porque precisava mesmo de um para poder estudar em casa.
A unica televisão que tive nova no meu quarto, fui eu que a comprei. Até lá, muita sorte tinha eu quando alguma TV avariava ou alguem comprava uma nova, e eu podia ficar com a velha.
A minha carta de condução foi paga por mim, depois de ter um ordenado meu. O meu carro a mesma coisa.
O meu computador actual foi comprado por mim, num ano em que me deu a travadinha e canalizei todo um subsidio de natal para esta brincadeira.
Enfim, podia continuar por aqui neste queixume, pois é como vos digo, praticamente 100% das coisas que eu tenho, tenho-as devido a mim mesmo. E isto deixa-me cheio de orgulho.
É uma sensação maravilhosa aquela em que pensamos que é devido ao nosso trabalho, à nossa ambição e à nossa perseverança que cheguei onde estou e que alcancei o que alcancei.
Esta pica, esta força de vontade, esta teimosia em querer vencer num mundo em que o cidadão comum como eu está condenado à partida era uma das coisas que me davam força de vontade de me levantar de manhã e ir à luta. De batalhar para por fim obter ou fazer as coisas que me façam sentir bem comigo mesmo, que me façam sentir recompensado pelo meu esforço. De ignorar aqueles que recebem as coisas sem fazer por elas e que depois acabam por não lhes dar o devido valor.
No entanto, eventos aconteceram e eu fiquei sem cólon.
A minha vida, que não vou dizer que era perfeita mas que era MUITO melhor do que esta merda em que estou agora, deu uma cambalhota, uma reviravolta, e eu perdi o rumo. Bem, não perdi o rumo, eu sei bem para onde quero ir, mas o navio perdeu as velas, metade do cordame e todos os remos, sendo então extremamente difícil (para não dizer impossível) navegar sem ser à deriva.
À deriva, esta é uma boa analogia. É assim que eu me sinto: à deriva.
Se antes me enchia de orgulho pensar "não tenho nada de mão beijada, mas tudo o que tenho e terei saiu-me do meu próprio cabedal", agora fico literalmente em pânico quando penso que não posso garantir que consiga fazer a mais simples tarefa como trabalhar para os meus gastos.
Gostaria de ter o meu próprio sitio, a minha casinha, o meu canto, o meu buraco... ...mas é impossível.
Sou inconsciente e irresponsável só por pensar nisso, pois se todos os meses me agarro à calculadora para orçamentar a medicação, comida e vícios, ainda vou juntar uma renda mensal a essa equação? Quando muito honestamente não me estou a ver a conseguir trabalhar e garantir um rendimento fixo?
Eu sou bom no que faço, e era excelente na Mapfre onde me conheciam e conheciam o meu trabalho, mas se até lá aqueles CENSURADO cagaram de alto em mim, me foderam e se viram livres de mim quando eu simplesmente deixei de conseguir responder ao trabalho de escravo que eles precisavam que eu fizesse, porque raio vai outro patrão compreender a minha situação? Nesta economia?
Quando todo e mais algum médico me diz directamente que a melhor coisa que eu tenho a fazer é começar actividade por conta-própria e ser o meu próprio patrão. E eu pergunto novamente: nesta economia?
Nunca tive medo de trabalhar para ter as minha coisinhas.
Simplesmente não tenho capacidade. Por mais vontade que tenha. E isso é triste.
Quando temos vontade mas não conseguimos ter capacidade... ...é triste.
É triste ao ponto de me indagar: mas o que é que eu cá ando a fazer, se é para ser assim?
Sem comentários:
Enviar um comentário