Muito boa tarde meus amigos e minhas amigas.
Sim, eu sei, faz quase um mês que não digo nada, mas para minha defesa não tenho tido a mínima vontade de escrever, muito honestamente. No entanto acho que já é altura de fazer um esforço e deixar aqui nem que seja uma pequena actualização do que se tem passado neste ultimo mês da minha vida, nesta nova aventura.
Mas antes disso... Gostava de fazer um aparte.
Aparentemente, e a avaliar pelas perguntas que me têm feito como: "então, já tás em casa?", ou "Então quando é que sais daí?", eu chego a conclusão de que a maioria das pessoas não tem a noção do que é a doença que tenho, vulgo Leucemia. Eu vou tentar resumir, quem já sabe pode muito bem saltar esta parte até ao próximo paragrafo.
A Leucemia (existem vários tipos) é uma doença degenerativa, um cancro onde a nossa medula óssea, medula essa que é responsável por fabricar o sangue que corre nas nossas veias, começa a fabricar células de sangue defeituoso. E o tratamento para essa doença passa por injectar um cocktail de drogas agressivas no nosso corpo, a chamada quimioterapia, que vai literalmente destruir todas as células do sangue, as defeituosas e as bem formadas. Destrói tudo indiscriminadamente para que a medula volte a fabricar novas células, que são depois analisadas para ver se vieram bem ou mal formadas. E este processo, tendo resultados diferentes de organismo para organismo, tem tendência a durar em média 3 a 4 semanas. E é um processo que tanto pode ser aplicado duas ou três vezes, ou quase uma dezena delas. Novamente, depende do organismo de cada um. Se estes tratamentos de quimioterapia não funcionarem, ou seja, se não fizerem a medula criar células não-defeituosas, aí sim, recorre-se ao transplante de medula óssea.
Portanto... Não, não vai ser uma coisa rápida. Não, não vou sair daqui tão depressa, e sou capaz de levar uns bons meses até sair.
Enfim, espero ter ajudado. Se quiserem saber informação mais pormenorizada, tenham em conta que eu tenho Leucemia Miéloide Aguda (LMA), e leiam o que existe aqui:
http://www.apcl.pt/leucemia/o-que-e-a-leucemia/tipos-de-leucemia
E agora adiante.
Digo-vos já que não tem sido fácil. Eu, que sempre fui uma pessoa nervosa e ansiosa, agora parece que estou ainda pior, o que não ajuda em nada... Mas também estou melhor em muitas coisas, o que é sempre positivo.
Durante este mês, iniciei e terminei o primeiro ciclo de quimioterapia, e caríssimos... Destruiu-me completamente. Estive quase três semanas sem comer, primeiro porque não conseguia mesmo, só o cheiro do comer da outra malta do quarto me dava náuseas, depois porque o meu intestino (o que sobra dele, anyway...) decidiu obstipar (creio que foi isso) e ficou com quase o dobro do tamanho. Assim, meteram-me a dieta zero: não come nem bebe nada.
Felizmente, acho que essa fase já passou, ontem já me trouxeram jantar, hoje já bebi um cházinho com pão com doce ao pequeno-almoço, e já almocei. Ou seja, acho que a questão da comida está resolvida, e vocês nem imaginam o que me custou. Especialmente estar sem beber.
Nos entretantos mudei de serviço, para o serviço onde deveria realmente estar desde o inicio, mas que não tinha vagas, e aqui as coisas são muito mais rigorosas. Curiosamente, eu conseguia dormir melhor no outro serviço onde estava... Aqui tenho-me visto à rasca, mas infelizmente é uma questão psicológica... Há-de ser resolvida. Tenho de admitir que é mais fácil desde que me desligaram o oxigénio, então não ouço o borbulhar da agua da garrafa, o que ajuda imenso.
Como passei duas semanas sem me levantar, fiquei totalmente sem músculo. Quando finalmente me levantaram, no passado dia 10 deste mês, mal me aguentava de pé.
No primeiro dia, tive de tomar banho sentado numa cadeira, e com a ajuda do enfermeiro, situação que foi gradualmente melhorando a cada dia, até que hoje finalmente tomei banho sozinho, sem cadeira, e sem qualquer problema. Claro que continuo a ter de ter muito cuidado. Eu ainda estou fraco, ainda me desequilibro, e ainda fico à rasca da respiração se me mexer muito. Não consigo ficar muito tempo em pé sem ter de me sentar, mas acho que tomar o banho todo sozinho, em pé, sem ajuda é uma vitória. E isso deixa-me contente.
Como disse, continuo a sentir-me extremamente cansado, com dificuldades respiratórias, mas devagar a coisa tem de ir ao sitio.
A equipa médica diz-me que os meus valores (entenda-se os componentes dos sangue como leucócitos, glóbulos brancos, plaquetas, etc etc etc) continuam a subir, mas a subir muito devagar.
Que começam a entrar na fase de eles acharem que se calhar estão a subir demasiado devagar, e que a continuar assim que provavelmente me mandam fazer o próximo mielograma mais cedo para entenderem o que se passa, mas que seja como for o valor do componente que representa o nível de defesas do meu organismo está a zero, ou seja, não tenho defesas. Nesta altura estou vulnerável a todo e qualquer bichinho que consiga achar o seu caminho para dentro do meu organismo e causar um estrago tremendo.
Como por exemplo a minha boca. Como efeito do tratamento, os meus lábios rebentaram. A minha língua está ferida, e custa-me a comer.
Já estou a fazer antibióticos para isso, e a bochechar com umas bisnagas que os enfermeiros me trazem, e ajuda um pouco, mas estou mesmo a ver que vou estar bem lixado para passar esta parte... É que é terrível, um gajo a querer comer e ter dores...
Enfim... Assim de uma maneira geral... Acho que basicamente é isto. Entre dores de cabeça, febres espontâneas (cheguei a fazer febre 3 vezes por dia durante uns dois ou três dias) atacadas a paracetamol, dores de boca e língua, dores de cateteres, e especialmente enquanto estava deitado dores de costas, cá vou passando os meus dias conforme se pode... Uns melhores, outros piores, mas, e segundo aquilo que toda a gente me diz, o importante é ir um dia de cada vez, um passo de cada vez, um objectivo de cada vez.
Pelo menos agora já como... E isso, para mim é como se fosse Natal. Com ou sem dores na boca... :D
Um grande abraço a todos
Carlos Dias
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